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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

L. C. Segundo
Portal do Aviador


O público deste Airshow 2013 em Oshkosh teve a oportunidade de assistir a materialização da lenda mitológica grega de Dédalo e de seu filho Ícaro. Vale recordá-la, ou contá-la para quem não a conhece:

Dédalo, um habilidoso artesão de Atenas, recebeu de Minos, o rei da ilha de Creta, a incumbência de prender o Minotauro, uma criatura metade homem, metade touro, em uma caverna cujo acesso era um labirinto de onde seria impossível sair. Entra em cena Teseu, um infeliz inimigo do rei, que teria a nobre missão de lá entrar , derrotar a fera Minotauro e jogar com a sorte sair vivo daquele labirinto. Acontece que a filha do rei Minos estava caidinha por Teseu e o nosso herói Dédalo, sensibilizado, deu a ela um novelo de linha para que Teseu o usasse para marcar o caminho de volta. Lógico que o rei descobriu a trama e prendeu Dédalo e seu filho Ícaro numa torre junto ao mar fortemente vigiada. Observador da liberdade dos pássaros, Dédalo logo concluiu que a única alternativa era sair dali voando e usou seu talento construindo asas para ele e para seu filho utilizando penas de pássaros coladas com cera. Como bom instrutor, orientou seu filho Ícaro para que não voasse nem muito próximo do sol, devido ao calor que derreteria a cera, nem muito próximo da superfície do mar, devido à umidade que também causaria a perda das penas. Saíram ambos batendo suas asinhas em voo solo e o jovem Ícaro, como bom manicaca, empolgado pela maravilhosa sensação de voar, esqueceu rapidamente as regras técnicas e subiu, subiu tanto que, quando se deu conta batia seus braços sem uma pena sequer. Na sequência ocorreu aquilo que a mitologia grega inventou sem o saber e que nós chamamos de estol! Ícaro estolou feio e é lembrado por batizar o mar onde se esborrachou de “o mar de Ícaro”. Dizem que o veterano Dédalo aterrissou suavemente na Sicília. A história deles terminou ali, mas serviram de inspiração para nós até hoje.




Mas, voltemos a Oshkosh com Yves Rossy, o Jetman, um ex-piloto da Força Aérea Suíça e piloto de Linha Aérea, patrocinado pela fabricante suíça de relógios Breitling que é estreante em Oshkosh onde realizou sua primeira apresentação pública voando vestido com um par de asas com propulsão a jato! Rossy subiu agarrado a um helicóptero, de onde saltou a cerca de 6500pés de altitude e navegou entre os cumulus que pairavam sobre Oshkosh escoltado por um Boeing B17!

Os quatro motores a jato alimentados por querosene Jet Cat 200P com 48,4 £ de empuxo cada, são controlados por comandos de potência em suas mãos e lhe permitem velocidade superior a 150mph. Os comandos de pitch e direção são executados por movimentos dos ombros, do corpo e das pernas atuando na “fuselagem” ou Jetwing, de fibra de carbono com envergadura de cerca de 2m.



Ainda apoiado no esqui do helicóptero, pouco antes de atingir a altitude adequada, ele aciona os motores com a ajuda de um assistente. Em aproximadamente 30 segundos os motores estão estabilizados em marcha lenta, o seu assistente desconecta o equipamento de monitoria, ele faz um reconhecimento visual para se situar e abandona o helicóptero mergulhando no vazio. Os únicos equipamentos que ele carrega são um altímetro e um timer. A velocidade, como ele próprio diz, ”você sente na pele, sente a pressão; você só tem que despertar esses sentidos. No avião essa função é delegada para os instrumentos, portanto o nosso corpo não desperta para isso.” 

Logo que ele atinge cerca de 160 mph ele estabiliza em voo horizontal levantando a cabeça e arqueando o corpo. Não há ailerons nem profundor, somente o seu corpo e respectiva sensibilidade. O botão do acelerador precisa cerca de duas voltas para ir de marcha lenta até potência máxima. Com cerca de 80% de potência ele atinge cerca de 110mph. Se por um lado o aumento da potência apresenta rápida aceleração, por outro a sua redução aponta um forte arrasto e desaceleração súbita.

Quando o timer acusa 9 minutos e 45 segundos de consumo de combustível ele inicia o procedimento para pouso, baixa o nariz, reduz a potência, corta os motores, o que ocasiona um pitch mais acentuado e, então, aciona o paraquedas

Rossy, hoje com 54 anos, voou desde planadores a caças na Força Aérea Suíça e posteriormente comandou o Airbus A320 na Swiss Airlines, porém, seu grande sonho era o voo livre que até o paraquedismo não satisfez. Surgiu então, em 1993, a ideia de voar com uma asa amarrada às costas. Inicialmente uma asa inflável e o seu desenvolvimento caminhou para a asa rígida de fibra de carbono e veio o reforço de Kevlar. A adição de um par de motores a jato foi a grande descoberta, marcante, porque pela primeira vez lhe permitiu vencer a gravidade e estabilizar o voo nivelado. E ele comemora: “Foi totalmente louco; depois de tantos voos de planeio, era como ter um punho gigante sustentando minhas costas!” Sua asa tem evoluído ao longo do tempo após construir mais de uma dúzia e algumas delas serem destruídas apesar de que ela tem seu próprio paraquedas para uso em caso de emergência. 

Rossy também enfrentou desafios regulatórios nos EUA para atender aos requisitos da FAA para receber permissão de voar o Jetwing lá. A EAA lhe prestou assistência e, enfim, recebeu um número de matrícula da “aeronave” N15YR. Tais regras, Rossy criticou, como sendo o maior impedimento para o avanço da aviação.

No Brasil já tivemos o privilégio de receber o Jetman que voou em torno do Cristo Redentor no Rio de Janeiro.

O custo do seu equipamento é de US$ 100 mil e Yves Rossy afirma que em três semanas, ele terá motores que oferecem o dobro de potência, que ele antecipa, lhe permitirá subir verticalmente. Após o voo o Jetman pousou suavemente no aeroporto de Wittman utilizando o seu paraquedas.

Fonte: EAA Oshkosh
Jornalista: Luiz Segundo - PortaldoAviador.com - 01/08/2013
Imagens: Cortesia de Breitling

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